quinta-feira, 24 de março de 2011

Amor extravagante


Maria. Um nome conhecido. Um nome até popular. No Brasil, existem milhares de “Marias”: donas-de-casa, mães de filhos, ricas, pobres, chefes de empresas ou empregadas. Cada uma tem a sua história. Mas apesar do nome conhecido, a maioria delas terá uma vida desconhecida. Poucas terão a sua história contada em um livro, por exemplo.

A Bíblia conta a história de uma “Maria” que, dentre tantas, foi uma pessoa especial. Especial porque foi transformada – e transformada porque seus passos se cruzaram com os passos de Jesus. Seu passado? Triste e doloroso. Perspectiva de futuro? Aparentemente nenhuma. Amigos? Restaram apenas seus irmãos: Marta e Lázaro, que eram bem diferentes dela.

Por muitos anos, Maria viveu no submundo dos vícios e dos prazeres. Viveu atormentada por espíritos imundos e acabou se tornando morada para 7 demônios. Ela sentiu na pele o que é ser prisioneira de Satanás e o que é sentir culpa, remorso, dor, sofrimento e discriminação. A palavra “Maria” quer dizer tanto “senhora” como “amargurada”. Ambos significados. Maria viveu os dois “pólos” do seu próprio nome. E para piorar sua situação, Maria vivia em Magdala, uma cidade litorânea que tinha, segundo o Talmude, uma reputação repugnante de prostituição. Imagine alguém chamando o nome “Maria Madalena” na rua: - “Amargurada da cidade das prostitutas, venha aqui!”. Esse era o significado do seu nome e da sua vida. O nome “Magdala” significa torre ou castelo, porém a vida de Maria mais parecia um castelo assombrado.

Apesar disso, a Bíblia não nos dá muitos detalhes sobre a sua infância e juventude. Que bom! E isso acontece porque Deus não se interessa com os momentos obscuros de nosso passado. Ele não explora a debilidade trazida pelo registro de nossa vida. Mas Ele se importa com o nosso presente e com o que podemos ser quando nos entregamos em Suas mãos. Ele se interessa com o nosso “aqui agora”.

E foi isso o que aconteceu com Maria. Ela se encontrou com Jesus, e recebeu uma nova chance. Você quer uma nova chance? Jesus é especialista em dar novas chances. Com Deus não há choro pelo copo derramado. Ele não se importa com aquilo que “nasce torto e nunca se endireita”, porque Ele é Mestre em endireitar as veredas e os corações dos perdidos. Não há ninguém que foi tão longe que não possa ser alcançado pela graça de Deus. E Jesus irradiou sua graça à Maria a ponto de transbordar um amor extravagante.

Talvez Maria tenha sido a única pessoa no tempo de Jesus que fez uma entrega completa a Ele. Ninguém mais fez isso. Nem Pedro, nem João, nem Nicodemos, nem a própria mãe de Jesus. Mas Maria Madalena fez. Ela derramou sua vida em gratidão e adoração a Jesus. Ela é um modelo de entrega completa e plena a Deus. É só você parar para olhar a cruz: depois que todos foram embora, só Maria restou. Foi a primeira a ver e conversar com Cristo após a ressurreição. Por quê? Porque ela experimentou o amor absurdo de Jesus e se apaixonou profundamente pela Salvação.

O texto de João 12 começa descrevendo um banquete em Betânia, ocorrido seis dias antes da Páscoa. Levando em conta que a entrada triunfal de Jesus foi no domingo, provavelmente essa refeição tenha acontecido no sábado à noite, após o pôr-do-sol. Esse evento aconteceu na casa de Simão, o fariseu, que tinha sido curado da lepra por Jesus (Mc 14:3-9). Ela era um dos poucos fariseus que se uniu abertamente a Cristo como um dos seus seguidores. Reconheceu Jesus como Mestre, mas infelizmente, não o reconheceu como Salvador. O que o atraía a Jesus era apenas a gratidão por tê-lo curado. Que pena! Muita gente tem um encontro com Jesus apenas em busca de troca de favores e negócios pessoais!

Para o banquete, Jesus não foi o único convidado. Muitas outras pessoas compareceram, dentre elas Lázaro (que tinha acabado de ser ressuscitado – imagine a cena! Quem será que chamou mais a atenção: quem ressuscitou ou quem fez ressuscitar?), as 2 irmãs de Lázaro: Marta e Maria e alguns discípulos. Nessa época, havia um grande alvoroço por parte de todo povo. As atenções dos judeus se voltavam para Cristo. “Será que Ele vai se proclamar Rei na sexta-feira, na festa da Páscoa?” Desde a ressurreição de Lázaro, esse milagre da ressurreição de um homem morto há 4 dias ganhou simpatia de todo o povo, provocando assim o ódio e desejo de matar Jesus por parte dos fariseus e lideres religiosos.

Enquanto que em Jerusalém o burburinho era total e a massa religiosa conspirava contra Jesus, o Mestre achava-se à mesa, juntamente com Simão de um lado e Lázaro do outro. Marta servia cuidadosamente enquanto que Maria ouvia atentamente cada palavra dita por Jesus. E hora da refeição você sabe como é que é: risos, alegria, história pra cá, história pra lá, barulho de copo batendo em talher, é comida caída na mesa... O papo tava bom, quando de repente, cheiro de comida misturou com cheiro de perfume. Em vez de “degustar” o cheiro maravilhoso dos pratos de Marta, o “gosto” virou “bálsamo de nardo puro”. Tanto que os mais “finos” da mesa devem ter dito: “nossa, quem tá usando esse perfume? Não tem ninguém rico aqui!!” Mas, de repente, perceberam que era Maria, irmã de Marta e Lázaro, quem derramava o perfume caríssimo sob os pés de Jesus e os enxugava com os seus cabelos.

Para quem estava na ceia, aquele perfume não combinava com Maria, muito menos com a sua reputação. Mas para Jesus combinava. Combinava com o seu coração. Maria tinha uma imensa gratidão por Jesus ter perdoado seus muitos pecados. Com muito sacrifício, comprou um vaso de alabastro contendo esse perfume caro para com ele ungir o corpo de Cristo.

O Alabastro era um pote feito de uma pedra somente encontrada nas imediações de uma cidade Egípcia chamada Alabastron. Era semelhante ao mármore, mas era mais maleável e facilmente se modelava os potes de perfumes.O nardo era um bálsamo feito da raiz de uma planta da Índia (Nardostachys jatamansi) que crescia nas montanhas do Himalaya. Os arábios a chamavam de “cravo indiano”. Não era apenas a distância, mas a raridade da planta que tornava o nardo caríssimo e tão procurado.

O alabastro e o nardo oferecido por Maria a Jesus talvez tenha sido o presente mais caro que Jesus recebeu em todo o seu ministério. Ela ouviu falar que Jesus seria coroado Rei de Israel. Seu pesar agora se transformou em alegria. Por isso, quis ser a primeira a honrar o seu Senhor. Derramou o perfume sobre a cabeça e os pés de Cristo e chorando, limpava com seus cabelos. Queria não ser observada, mas o perfume encheu toda a casa. Como não ser observada, por ter quebrado um perfume tão valioso?

Eu quero refletir sobre a maneira como esse presente foi oferecido: “...e, quebrando o alabastro, derramou o bálsamo sobre a cabeça de Jesus.”
- Se ela tivesse derramado apenas umas gotas – eles diriam: - “Oh, vejam quanto amor ela tem pelo Mestre!”
- Se ela tivesse derramado apenas a metade do Nardo e guardado a outra metade, talvez tivessem dito: - “Oh, vejam que dedicação, nunca vimos algo semelhante a isso!”
- Não, Maria quebrou o gargalo do vaso e derramou completamente o bálsamo sobre a cabeça de Jesus. Por isso disseram: - “Que desperdício”!

Não apenas o presente foi caro, mas foi dado sem retorno. Jamais seria re-utilizado o vaso de alabastro e nem o seu perfume. Aqui vemos uma grande analogia. Pessoas inquebráveis jamais poderão ser utilizadas para alegrar a Deus. A menos que você seja quebrantável, a menos que você seja arrebentável, você jamais poderá oferecer o bálsamo do seu amor a Deus.

E Judas, o famoso Judas, foi o primeiro a mostrar o seu desagrado. Afinal, era o tesoureiro dos discípulos e não poderia aceitar que uma mulher desperdiçasse tanto dinheiro assim, derramando perfume em Jesus. Mas, na verdade, o “histórico encoberto” da vida de Judas não era assim tão bom como parecia. As poucas quantias de dinheiro que os discípulos recebiam eram usadas de maneira inconveniente por Judas. (João 12:6) Ele usava parte do valor para o seu próprio beneficio. Se vendessem o perfume por 300 denários, por exemplo, assim como ele sugeriu (v. 5), certamente esse dinheiro nunca seria usado para o beneficio dos pobres.

Outro ponto sobre Judas: ele considerava-se superior aos discípulos por achar que possuía grandes habilidades administrativas. Achava que, por ser o financista do grupo, deveria receber maior reconhecimento por parte dos outros discípulos. Resumindo: um verdadeiro hipócrita; homem duas caras (Tg 1:8). Ajuntou tesouros na terra e perdeu a oportunidade de ajuntá-los no Céu.

O perfume derramado por Maria em Jesus tornou-se um símbolo do embalsamento de Jesus. "Ora, derramando este perfume sobre o Meu corpo", disse Ele, "ela o fez para o Meu sepultamento." Mat. 26:12. Enquanto que José de Arimatéia embalsamou Jesus morto, cuja fragrância impregnou apenas o túmulo, a unção feita por Maria ofereceu a Jesus o amor e gratidão enquanto Ele ainda vivia. Algumas pessoas só oferecem flores às outras pessoas após a sua morte. Nunca demonstraram esse amor enquanto estavam vivas. Com Maria foi diferente. Ele aproveitou o momento enquanto Cristo ainda estava vivo.

Como o vaso de alabastro foi quebrado, e encheu toda a casa com sua fragrância, assim Cristo havia de morrer e Seu corpo ser quebrantado; mas Ele Se ergueria da tumba, e o perfume de Sua vida havia de encher a Terra. "Cristo nos amou, e Se entregou a Si mesmo por nós, em oferta de sacrifício a Deus, em cheiro suave." Efés. 5:2.

Você percebeu o contraste entre o ato de Maria e as intenções de Judas? Enquanto que uma derramou sua sinceridade sobre seu Mestre, Judas expressou a dubiedade que ia em seu coração. Uma ofereceu uma adoração plena a Jesus e o outro, adorou a si mesmo. Podemos fazer uma reflexão e algumas perguntas a nós mesmos: “A quem estou adorando? Que tipo de entrega estou fazendo? De que maneira estou adorando?”

“O olhar que Jesus lhe lançou, no entanto, convenceu a Judas de que o Salvador lhe penetrara a hipocrisia, e lera seu baixo, desprezível caráter. E louvando Maria, tão severamente reprovada, Cristo repreendera a Judas. Antes disso, o Salvador nunca lhe fizera uma censura direta. Agora, a reprimenda irritou-lhe o coração. Decidiu vingar-se. Da ceia, saiu diretamente para o palácio do sumo sacerdote, onde encontrou reunido o conselho, e ofereceu-se para lhes entregar Jesus nas mãos.” DTN 564.

Tirando o problema de Judas naquela noite, a experiência de Maria com Jesus entrou para a história da raça humana. A Bíblia diz que “onde for pregado em todo o mundo o evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua”. Marcos 14:9. Quando eu penso nesse relato do Banquete em Betânia, penso o seguinte: “Pelo que os seres humanos são lembrados?” Hoje em dia, alguns são lembrados por uma cruel atrocidade, outros pela mais desprezível traição, outros ainda por atos de coragem heróica, por uma resistência incansável, outros por sua arte de pintar, esculpir, escrever, representar, compor, cantar, etc. Maria não. Ela não será lembrada pelos seus talentos. Muito menos pelos seus pecados. Essa simples mulher será lembrada pelo seu amor extravagante por Jesus. Pelo seu maior presente: seu coração por inteiro.

Naquela noite, Maria entrou em cena, não com um instrumento de cordas, ou com adufes e danças, nem com um pedido de socorro, ou uma doença incurável para ser tratada. Afinal, Jesus recebia pessoas assim todos os dias. Doentes, necessitados, carentes de atenção e salvação. Mas sua atitude foi diferente. Silente, resoluta, humildemente se aproximou do Mestre, e numa demonstração de amor sem precedentes, ela quebra o seu vaso de alabastro e deixa derramar sobre a cabeça de Jesus o precioso perfume.

Ela não buscou milagres. Não procurou Jesus para reclamar da injustiça. Ela o buscou para extravasar seu amor. O que produziu isso em seu coração não foi ela mesma. Foi o encontro do Criador com a criatura. É como se o sedento fosse literalmente encharcado por correntes de um rio de água viva; É como se ao faminto, que há dias não come, fosse servido o Pão da vida; É como o viajante, que perdido no meio da escuridão, encontra a Luz do Mundo. Quando o nosso coração já não suporta mais o peso do seu pecado e é aliviado da opressão da sua iniqüidade pelo poder purificador do sangue de Cristo; quando a alma humana sente as torrentes do perdão divino arrebentando as fortalezas da condenação, o resultado é AMOR; adoração plena.

Sobre esse amor, William Barclay disse: “O amor não calcula meticulosamente menos ou mais. Não se preocupa em saber quão pouco pode ser decentemente oferecido. Se deu tudo o que tinha, então deu o mundo inteiro, e ainda seria pouco.”

Quando penso na história de Maria, pergunto: “Que tipo de presente tenho eu para dar a Deus?” O presente que Jesus mais gosta de receber é o que está em Provérbios 23:26: “Dá-me filho meu o teu coração”. Se dou todo o meu coração, então dou o mundo inteiro.

3 comentários:

  1. Marinelly Macêdo3 de abril de 2011 21:48

    Pr. Milton que texto maravilhoso...Visito o seu blog sempre que posso, em meio as correrias da faculdade, família, trabalho eu sempre tiro um tempinho para entrar, parar um pouco minhas atividades e refletir sobre o que você tem escrito no seu blog.
    E dessa vez não foi diferente, todos os textos escritos pela sua pessoa eu leio, mas esses dias um em especial me chamou a atenção pelo título.
    Ao entrar no blog me deparei com o título amor extravagante e não pude deixar de ler o texto.
    Embora extenso...rsrs, fiz o esforço de ler por completo, e que história maravilhosa estava escrita ali.
    História essa que na maioria das vezes não damos a devida atenção, não paramos para analizar a história dessa mulher, que pela sua atitude tem tanto a nos ensinar.
    Pr. Milton não quero me demorar muito nas minhas palavras, mas quero apenas refletir sobre o que Maria fez naquele banquete, ela derramou um perfume caríssimo sobre os pés de Jesus, provavelmente essa era a uníca coisa de valor que ela possuia, mesmo assim ela escolheu derrama-lo aos pés de Jesus.
    Que ato maravilhoso, que prova de amor...a história de Maria naquele banquete traz lições importantes que merecem ser colocadas em prática
    nas nossas vidas. Só uma mulher que estava disposta a fazer uma entrega completa a Jesus, seria capaz de derramar um perfume tão caro aos pés de Jesus e enxugar com os seus cabelos.
    Hoje também temos a oportunidade de se entregar como Maria, mas muito de nós relutamos em dar o melhor para o Senhor, Deus, assim como você mencionou, pede somente o nosso coração para ser entregue a ele e algumas pessoas ainda reluta em fazer essa entrega.
    Que assim como Maria todos nós estejamos dispostos a fazer uma entrega completa a Jesus todos os dias das nossas vidas.

    ResponderExcluir
  2. Olá Marinelly, obrigado pelo comentário e pela sua contínua presença aqui no blog! Confesso que preciso atualizá-lo com maior frequência... Mas quando tiver um tempinho, posto alguma coisa sobre as nossas viagens e reflexões bíblicas. Um abraço e que Deus lhe abençoe sempre! Milton

    ResponderExcluir
  3. Oi Pr. Milton eu é que tenho que te agradecer, vou esperar as suas postagens mais recentes...rsrs
    Sou sua fã e também amo o quarteto arautos do rei, vocês são um instrumentos nas mãos de Deus...Oro para que Deus possa continuar iluminando a sua vida. acompanho toda semana o programa que você juntamente com o quarteto apresenta...O papo afinado é bom d+, não perco um programa.
    Que Deus continue lhe usando para o seu louvor. Deus te abençõe.
    Um abraço!!!

    ResponderExcluir